
A matança do porco é um ritual que não deve ser esquecido, pois era um dos dias de convívio mais importantes do ano.
Depois de combinado o dia da matança com a família e amigos, a manhã começava pelo mata-bicho: habitualmente nozes com figos secos mais a aguardente bebida copiosamente, não só para aquecer o corpo e o espírito, mas também para esquecer a morte do animal, que tinha sido tratado quase como da família . Cevado com batatas pequenas cozidas em grandes caldeiras, rações de centeio e castanhas, umas viandas com farelos e tudo que fosse comestível, transformava-se ao longo do ano de raquítico leitão num animal de encher o olho, pesando umas largas arrobas.
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As sopas xis |
um belo porquinho |
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estas sopas são tradicionais na nossa aldeia |
daqui a pouco falamos..... |
O banco de madeira , tosco mas robusto , bem calçado, para o porco não escorregar encontrava-se em posição. Os homens liderados pelo matador , prendiam o reco pelo focinho após uma luta renhida , pois adivinhando a sua sina, não se rendia à primeira e os seus gritos lancinantes ecoavam na manhã fria, escoando-se pelas ruas da aldeia e perdendo-se no alto das Figueirinhas e da Soalheira. Içado para o banco , bem preso com a corda, seguro pelas mãos fortes do pessoal era sangrado com uma faca bem afiada, empunhada pela mão segura do matador. O sangue era recolhido num alguidar, mexido continuamente para não coagular e ser aproveitado para enchidos. A criançada irrequieta e friorenta, não arredava pé, aguardando o seu troféu, o rabo do porco a fim de ser assado nas brasas e comido como petisco. Iniciava-se então fase de "chamuscar" o reco , com pequenos molhos de colmo ( presentemente usam maçaricos) e o " raspar " dos pelos deixando o couro bem lavado. Seguidamente era o "abrir" do porco, operação verdadeiramente cirúrgica que só bons especialistas conseguiam efectuar correctamente. São feitos dois golpes ao longo da barriga do porco , desde o cú até à cabeça, sendo retirada a barbada conjuntamente com o coração, o fígado e demais interiores, extraídas as tripas, colocadas num cesto revestido por alvos panos de tecido. Finalmente, o porco é bem lavado e pendurado na adega a escorrer, para no dia seguinte ser desmanchado.
Entretanto as mulheres , sobretudo as mais novas, vão lavar as tripas enquanto os homens tratam de se refazer do esforço, comendo um guisado feito dumas aparas das costelas, bem picante e acompanhado de uns avantajados copos de tinto. A dona da casa não tem mãos a medir, rodeada de panelas ferventes que libertam uns odores celestiais, apressa o tão esperado almoço. Já não sei os pratos que eram servidos, mas seriam pelo menos cinco ou seis, donde destaco as célebres sopas Xis. Ao contrário do que acontece noutras zonas, no almoço da matança não se come praticamente carne do porco desse ano, apenas um prato de fígado grelhado se bem me recordo. A carne de porco era a base de alimentação da população e sem qualquer desperdício. Assim da carne de 1ª categoria eram feitos os salpicões ( e que maravilhosos), da de 2ª categoria as linguiças, da de 3ª as bochas, da de 4ª os bulhos ou botelos, contribuindo ainda para o fabrico das alheiras, dos chouriços de sangue ( Chavianos) e dos azedos. Enfim, é um sem número de produtos todos eles de grande qualidade, fabricados a partir da carne do porco.
(Não haverá por aí umas conterrâneas que resolvam publicar uma receitas no site)?